09 janeiro 2014

MIL SÓIS


           
Era quase como um desfrute proibido da vida. Eles se amavam de fato, cada um a seu modo, cada um com sua intensidade. Sentiam algo tão novo em seus corações que não arriscavam ir além, como se fosse perder o encanto. Ele a amava com o calor da amizade serena, ela se cativara por um amor eterno e adolescente. Sofriam em silêncio toda essa confusão, e se encontravam tão perdidos dentro dessa aflição denunciada, que também não a comentavam. Tudo soava muito secreto.           
Os olhares. Sim, nos olhares eles conseguiam fazer verdadeiros diálogos absurdos, e sabiam bem o que diziam. Às vezes, nas situações mais tensas, se apuravam disso e se confortavam desta maneira: "está tudo bem?", "me desculpe", "te amo", "estou aqui"... Sentiam assim, uma vaidade por se conhecerem nas simples intenções. E claro, nestes verbetes mudos, quase sempre se confundiam sobre quem amava quem ou quem era mais amigo.           
Aconteceu que uma vez se perceberam sentados por horas em um banco na praça da Igreja de Fátima lendo. E quem os acordou para isso, acreditem, foi o sol meio tímido querendo nascer. Quase que constrangido por denunciar seus rostos cansados. Pois quando ainda era noite, ele abriu o livro em uma página qualquer e começou a ler ‘Crônicas de uma Província em Chamas’. Ela, que amava teatro, se divertiu com a leitura dramática.            
O pretexto que precisavam para esperar o próximo ônibus, e outro. E não apenas quando a manhã chegou, eles que concluíram o porquê, foi bem antes, no instante que ela se distraiu nas palavras e ele cansou de ler. Perceberam que estavam ali apenas por estarem os dois.            
- Vem comigo hoje, dorme lá em casa...            
- Sabe que não posso, meu anjo, estou com Lô faz oito anos, não posso estragar tudo...           
- Não diria isso se me amasse. E como se fosse motivo para evitar o apego entre duas pessoas...           
- O que quer que eu faça? Que termine minha relação? Não conseguiria viver sem ela, entenda.           
- Você está vivo não está? Lindo como sempre, mesmo com esses olhos pescando a luz. E se não percebeu... Onde ela está? Estamos juntos quase todos os dias e não o vi passar mal em nenhum. Vocês se falam ao telefone pelo menos?           
- Também não é assim, Amandinha. Ela liga lá para casa! Não temos mais necessidade dessas ligações diárias, já nos conhecemos bastante. E quase todo final de semana ela vem me ver.            
- Sério? Hoje é sábado, quero dizer... era. Agora é domingo. Enfim, tudo bem. Não posso fazer nada! Você fecha a questão, apesar de estar a tão poucos quilômetros de sua amada e acabar amanhecendo aqui comigo em plena treze de maio. Poderia estar lá na praia com Heloisa, se quisesse, claro.             
- Você só pode estar brincando. A vida também não funciona assim. Além do mais você faz desse seu amor um capricho bobo. É uma moça linda e inteligente, não precisa ser refém disso.           
- Quero você, Ronaldo. Não consigo gostar de outro. Se conseguisse seguia em frente, ia mesmo...           
- Dei minha maior amizade, és minha melhor amiga, amo você.  Mas não quero ter que me afastar por fazer sofrer... Lembra do que lhe disse naquele dia? Não se lembra, não é?           
- Claro que lembro... Mas você falou muitas coisas...           
- Falei que era como o irmão que não tive.           
- Pelo amor de Deus, não quero ser sua irmã, quero ser sua mulher! Para amar pela vida toda. Vou estar ao seu lado sempre, construiremos nossos sonhos juntos.           
- A vida não é feita de sonhos, Amanda. Você é uma menina ainda.           
- Fala como se fosse a voz da experiência, só é dois anos mais velho, nem isso, ano e meio talvez. Chegaremos quase juntos aos trinta.           
- O que você quer com tudo isso? Honestamente, onde quer chegar com isso numa hora dessas?           
- Vamos dormir juntos hoje...           
- Mas isso é um absurdo, Amanda!           
- Não estou dizendo que vamos fazer algo, calma! Poderíamos só dormir abraçadinhos... Seria tão bom. Sinto sua falta quando vou dormir.           
- Não, não! Não, não! Se precisar de algo para se abraçar compre um urso, sua irmã tem um enorme que dá para quebrar seu galho. E o que é que vou dizer depois para Lola? “Fui dormir abraçadinho com a Amanda, mas não tem nada demais, ela é só minha amiga.” Que loucura isso que está propondo!           
- Sempre usando ela como desculpa para tudo. Fez disso um escudo! Ela não gosta de você, Ronaldo, não gosta! Se merecesse, juro que não diria isso. Quando estão juntos nunca se falam, não se abraçam, não se beijam... Ela parece que não sente nem saudade quando te vê. E eu sinto sempre!           
- Não sabe o que está falando! Heloisa é louca por mim, nos amamos muito. Além disso, ainda fazemos sexo loucamente, o tempo não passou para nós.           
- É uma piada? Como se o amor fosse feito de sexo, agora eu que pergunto se está falando sério?!           
- Vamos continuar com isso? São 7 horas da manhã, perdemos a noção do tempo.           
- Perdemos mesmo, vou pegar este ônibus. É o meu!           
- Ainda vamos nos ver, certo?           
- Disse que não queria me ver sofrer?           
- Disse também que não quero ficar longe de você.            
Ela ouviu, subiu e não olhou para trás. Não buscou seu olhar, Preferiu assim, na verdade sempre que falavam do que sentiam esquivavam o último olhar. E aquele não foi diferente. Porém, compreenderam que estavam no limite máximo entre ir e ficar, alguém precisava mudar. Na segunda, se encontraram como se nada tivesse acontecido. Na terça, quarta... Viram mil sóis banhar-lhes os lábios, mas agora se estranhavam nos abraços. Algo realmente mudou, mas não sabiam bem o quê... Não se olharam de verdade justo no alto do planalto, que lhes fechou o quadrado.

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