Era quase como um desfrute proibido da vida. Eles se
amavam de fato, cada um a seu modo, cada um com sua intensidade. Sentiam algo
tão novo em seus corações que não arriscavam ir além, como se fosse perder o
encanto. Ele a amava com o calor da amizade serena, ela se cativara por um amor
eterno e adolescente. Sofriam em silêncio toda essa confusão, e se encontravam
tão perdidos dentro dessa aflição denunciada, que também não a comentavam. Tudo
soava muito secreto.
Os olhares. Sim, nos olhares eles conseguiam fazer
verdadeiros diálogos absurdos, e sabiam bem o que diziam. Às vezes, nas
situações mais tensas, se apuravam disso e se confortavam desta maneira:
"está tudo bem?", "me desculpe", "te amo",
"estou aqui"... Sentiam assim, uma vaidade por se conhecerem nas
simples intenções. E claro, nestes verbetes mudos, quase sempre se confundiam
sobre quem amava quem ou quem era mais amigo.
Aconteceu que uma vez se perceberam sentados por
horas em um banco na praça da Igreja de Fátima lendo. E quem os acordou para
isso, acreditem, foi o sol meio tímido querendo nascer. Quase que constrangido
por denunciar seus rostos cansados. Pois quando ainda era noite, ele abriu o
livro em uma página qualquer e começou a ler ‘Crônicas de uma Província em
Chamas’. Ela, que amava teatro, se divertiu com a leitura dramática.
O pretexto que precisavam para esperar o próximo
ônibus, e outro. E não apenas quando a manhã chegou, eles que concluíram o
porquê, foi bem antes, no instante que ela se distraiu nas palavras e ele
cansou de ler. Perceberam que estavam ali apenas por estarem os dois.
- Vem comigo hoje, dorme lá em casa...
- Sabe que não posso, meu anjo, estou com Lô faz oito
anos, não posso estragar tudo...
- Não diria isso se me amasse. E como se fosse motivo
para evitar o apego entre duas pessoas...
- O que quer que eu faça? Que termine minha relação?
Não conseguiria viver sem ela, entenda.
- Você está vivo não está? Lindo como sempre, mesmo
com esses olhos pescando a luz. E se não percebeu... Onde ela está? Estamos
juntos quase todos os dias e não o vi passar mal em nenhum. Vocês se falam ao
telefone pelo menos?
- Também não é assim, Amandinha. Ela liga lá para
casa! Não temos mais necessidade dessas ligações diárias, já nos conhecemos
bastante. E quase todo final de semana ela vem me ver.
- Sério? Hoje é sábado, quero dizer... era. Agora é
domingo. Enfim, tudo bem. Não posso fazer nada! Você fecha a questão, apesar de
estar a tão poucos quilômetros de sua amada e acabar amanhecendo aqui comigo em
plena treze de maio. Poderia estar lá na praia com Heloisa, se quisesse, claro.
- Você só pode estar brincando. A vida também não
funciona assim. Além do mais você faz desse seu amor um capricho bobo. É uma
moça linda e inteligente, não precisa ser refém disso.
- Quero você, Ronaldo. Não consigo gostar de outro.
Se conseguisse seguia em frente, ia mesmo...
- Dei minha maior amizade, és minha melhor amiga, amo
você. Mas não quero ter que me afastar
por fazer sofrer... Lembra do que lhe disse naquele dia? Não se lembra, não
é?
- Claro que lembro... Mas você falou muitas
coisas...
- Falei que era como o irmão que não tive.
- Pelo amor de Deus, não quero ser sua irmã, quero
ser sua mulher! Para amar pela vida toda. Vou estar ao seu lado sempre,
construiremos nossos sonhos juntos.
- A vida não é feita de sonhos, Amanda. Você é uma
menina ainda.
- Fala como se fosse a voz da experiência, só é dois
anos mais velho, nem isso, ano e meio talvez. Chegaremos quase juntos aos
trinta.
- O que você quer com tudo isso? Honestamente, onde
quer chegar com isso numa hora dessas?
- Vamos dormir juntos hoje...
- Mas isso é um absurdo, Amanda!
- Não estou dizendo que vamos fazer algo, calma!
Poderíamos só dormir abraçadinhos... Seria tão bom. Sinto sua falta quando vou
dormir.
- Não, não! Não, não! Se precisar de algo para se
abraçar compre um urso, sua irmã tem um enorme que dá para quebrar seu galho. E
o que é que vou dizer depois para Lola? “Fui dormir abraçadinho com a Amanda,
mas não tem nada demais, ela é só minha amiga.” Que loucura isso que está
propondo!
- Sempre usando ela como desculpa para tudo. Fez
disso um escudo! Ela não gosta de você, Ronaldo, não gosta! Se merecesse, juro
que não diria isso. Quando estão juntos nunca se falam, não se abraçam, não se
beijam... Ela parece que não sente nem saudade quando te vê. E eu sinto
sempre!
- Não sabe o que está falando! Heloisa é louca por
mim, nos amamos muito. Além disso, ainda fazemos sexo loucamente, o tempo não
passou para nós.
- É uma piada? Como se o amor fosse feito de sexo,
agora eu que pergunto se está falando sério?!
- Vamos continuar com isso? São 7 horas da manhã,
perdemos a noção do tempo.
- Perdemos mesmo, vou pegar este ônibus. É o
meu!
- Ainda vamos nos ver, certo?
- Disse que não queria me ver sofrer?
- Disse também que não quero ficar longe de
você.
Ela ouviu, subiu e não olhou para trás. Não buscou
seu olhar, Preferiu assim, na verdade sempre que falavam do que sentiam
esquivavam o último olhar. E aquele não foi diferente. Porém, compreenderam que
estavam no limite máximo entre ir e ficar, alguém precisava mudar. Na segunda,
se encontraram como se nada tivesse acontecido. Na terça, quarta... Viram mil
sóis banhar-lhes os lábios, mas agora se estranhavam nos abraços. Algo
realmente mudou, mas não sabiam bem o quê... Não se olharam de verdade justo no
alto do planalto, que lhes fechou o quadrado.

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