09 janeiro 2014

SEGUNDO OLHAR


O BUQUÊ E O CARTÃO DE FIM DE ANO
                                                                                                        Velório para duas amiga
São cinco horas, o dia está nascendo. Ruth chega ao ponto de ônibus trazendo um pote de café. No local está Beth com um cartão de papel na mão. Elas não se falam. Ao olhar de um terceiro, soam como duas estranhas agindo como se esperassem uma condução. Outras pessoas também estão lá. Ruth vai ficando impaciente e quebra o silêncio.
Ruth - Tem um pedaço de você aqui dentro deste vidro de café. Olha (abrindo e mostrando), eu abri e tinha um pedaço! Ia jogar fora, mas quando abri o lixeiro (pasma e afirmativa) tinha um pedaço de dentro de você.
Beth- (calma) Tem várias maneiras de escrever de Beth. Pode ser B - E - T - H, simplesmente! Pode ser B-E-T-H -E também, mas aí já é mais complicado...
Ruth - (interrompendo) Eu corri, abri a geladeira... Outro pedaço de você! Lá dentro da geladeira! (pausa, olhando para Beth e esperando uma resposta) Você não entende? (rindo) Pedaços de você estão aparecendo nos cantos mais absurdos (sente um desconforto no pé e tira o salto para ver se tem algo dentro, e numa verdadeira expressão de espanto tira uma rosa de dentro), e absurdos também, um pedaço de você aqui!
Beth - (grita) Para com isso! Você está complicando! Olha, contanto que você me chame de Beth e não de bosta, tudo bem. E você ainda é nova demais, volte para casa e vá dormir que é melhor.
Ruth - Você sabe que maionese não como, mas eu a abri só para ter certeza. Tinha um pedaço de você! (respirando) Vou tomar café na padaria, na verdade, estava indo para lá quando no meio do caminho... você...
Beth - Não me torture, não me torture pelo que falei... Todos falam e no fim das contas você vem me torturar porque falei também. Vou tratar de pegar esse ônibus que é melhor. Vou sair da cena (pega o transporte e sai apressada guardando o cartão na bolsa).
Ruth tenta entregar-lhe a rosa, mas, no movimento contrario das duas, deixa cair no chão. Um homem distraído pisa, ela se abaixa para juntar, mas outro passa correndo e a despedaça.
Ruth - (levantando triste) Eu ia guardar para colocar no pão...

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