Todos os dias tenho os sonhos mais loucos e absurdos
enquanto durmo, e não sei se, por serem reais demais ou por ter perdido o meu
senso de realidade, eles sempre arriscam virar lembranças de uma existência que
não vivi.
Para que entendam bem o que falo, vou figurar e
mastigar-lhes minha insanidade. Certa vez sonhei, ou tento me convencer ter
sido um, que derrubei por acidente meu cachorro da janela do quarto andar. Vejo
com perfeição na minha memória, o momento que pequei o interfone e liguei para
portaria perguntando se ele estava vivo, mas ninguém vira o cão cair. Quando
desci, ele estava serelepe e correndo marcando território. Mas a aflição que
senti tentando lhe agarrar uma patinha e depois vê-lo escapando das minhas
mãos, se fazendo fruto das leis da gravidade... Dá um desespero só de lembrar.
Agora analisando bem, se foi fantasia era um
pesadelo, porém ainda não consigo mesmo me convencer que isso não aconteceu. E
por via das dúvidas, nunca mais levei o cachorro para sua diversão matinal na
janela.
Outra situação bem curiosa, e mais leve, graças aos deuses,
foi a vez que guardei 20 reais na gaveta da cômoda e nunca achei. Quando
levantei fui procurar o dinheiro e não estava lá. Nesse caso, eu tenho mais
consciência que foi um devaneio, pois dentro do meu arquivo de memórias uma
folha no capítulo deste dia fiz: você acordou no momento que guardou o
dinheiro.
Até hoje quando abro a gaveta olho para ver se o dinheiro não está em um cantinho escondido. Eu sei, é
coisa de gente louca mesmo.
Acontece pois que, dentre tantas dessas
excentricidades que construo enquanto durmo, nada mexeu mais comigo que o sonho
do rapaz andando no meio da multidão. Quando tinha uns 14 anos o vi pela
primeira vez e nunca duvidei que era uma ilusão noturna. Tinha cara de sonho
mesmo. Até o dia que o encontrei pessoalmente na vida real... Foi assustador.
Na ficção do imagético, foram umas quatro ou cinco
vezes que me perturbou essa confluência. Via-o sempre no meio de uma multidão
colossal, ele sorria e começava a fugir. E desenfreadamente eu começava a
persegui-lo até perdê-lo de vista.
Não queiram imaginar a agonia que sentia depois de
acordar e colocar os pés no chão. Nunca tive filhos, e se tiver não serei mãe,
mas imagino ser a mesma sensação de uma que perde sua ovelha negra para o
mundo.
Foi por isso que citei o sonho do cachorro, para
fazer um paralelo das emoções. A aflição de não conseguir pegá-lo no ombro e
perguntar porque estava correndo é mil vezes maior do que não ter segurado a
pata do cachorro.
Porém, voltando, cerca de dois anos atrás, em um
primeiro dia de aula e durante uma apresentação de turma, no giro da roda de
apresentação, encontrei-o parado pela primeira vez e anda me encarando a
retina.
Foi assustador! Levantei e saí da sala. Foi surreal
demais para minha cabeça de vento. Um choque, sem eletricidade e sem poder
acordar de susto. Era a mesma pessoa, sem tirar nem por, mas feito de gente.
Eu nunca contei isso para Demétrius. E foi a primeira
vez que desejei mesmo estar falho das ideias ou da vida. Mas não estava...
Tenho total noção e equilíbrio sobre tudo o que aconteceu.
Talvez por isso me apaixonei por ele. E quando me
disse, com o mesmo sorriso sonâmbulo, que não podíamos ficar juntos e um dia
iria entender o porquê, não consegui mais dormir.
Se continuar essa história, farei deste um conto literário
um relato biográfico e tenho certeza que vou acabar expondo toda a minha
fragilidade mental para o caro leitor. Então, por favor, não me julgue e não me
tome como insano, pois veja que isso eu já faço. Pense que sou normal, por
caridade.
Quando voltei para casa naquele dia, início das aulas
de teatro, decidi que nunca mais iria sonhar. E realmente acho que nem mais
dormi, ou não mais acordei e não percebi... Que diferença faz? Estou a mais de
800 dias com os olhos cansados por ele, e um ‘A’ ou ‘B’ a mais não vai mudar
nada.
- Lidiane – isso hoje, a pouco lá no bar Birosca
Verde – Traz um burrinho e um limão, faz favor. Estou a quase um século de dias
sem ser feliz.
- Demétrius saiu a pouco, falou que ia trabalhar
amanhã cedo e não poderia te esperar...
- Ele acha que não poderia, Lidiane. Mas ele pode
tudo e nem ficou sabendo.
- Fala assim porque não trabalha.
- Aí é que você se engana, linda dama. Posso ter
chegado bêbado, mas ainda estou batendo o ponto. Ando atrás da minha
inspiração.
- Pois ela já foi para casa faz tempo e breve quero
fechar o bar – e me falou sorrindo com a gentileza que só ela tem – Você vai
levar horas para acabar essa garrafa sozinho, sabe disso...
- Pois saiba que ele não é a única inspiração para
minha literatura, não. Os frutos sempre são doces e maduros para aqueles que
não comem da maçã.
- Trago só uma dose mesmo?
- Dupla pelo menos.
- Sabe o que te conto mais, Lide? Ele é filho de
Lôran. É sério! É o sétimo herdeiro do primeiro casamento do mago azul.
- Não diga – rindo como se eu estivesse falando algo
muito absurdo.
- Da estrela de Domenico I, fica ao lado da lua de
Vênus. Lôran mora lá.
- E é ele quem vai te levar para casa? Olhe o estado
que você está!
- Eu estou bem demais...
- Vai ficar louco, menino! Para com isso.
- Já sou, Lide-Lide. Ou ainda tinha dúvidas?
- Aparentava bem menos.
- Pois Lorân está de sacanagem comigo, ela me
prometeu a mão do seu príncipe e até hoje, nada de gatinho preto pro meu lado.
– e gritei para o céu – Lôran, seu maldito! – mas acho que ele não ouviu por
conta do reboco do teto.
- Se Deus escutar vai pensar que falaste com Ele.
- Se Deus me ouvisse, se sentisse mesmo meu coração,
não me deixava viver assim sem meu presente do amor.
- Ele escuta tudo, menino, tem calma!
- Menino, eu? Quem dera. E mais velho estou ficando
na alma.
- Então deixa de reclamar da vida.
- Lôran só pode estar querendo testar meus
sentimentos. Acha que não vou amar esse rapaz pela eternidade.
- Que história é essa de Lorân? Por Deus! Conversa
mais sem nexo. Bebe para ficar falando besteira.
- Eu bebo para esquecer o que de fato existe. E Lôran
é meu protetor celeste.
- Pois vou fechar, querido. Que Lôran te acompanhe...
- Tudo bem. Se não tem jeito... Vou com ele mesmo.
E acredite, um disco voador desceu céu e me deu
carona.